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Qualidade de vida: uma reflexão

Assim como brasileiros que se mudam para o Canadá, milhões de pessoas deixam seus países todos os anos em busca de maior qualidade de vida. Mas o que seria uma vida de qualidade? É importante refletir sobre essa questão, afinal, não se pode ter qualidade de vida sem antes saber o que isso significa pra você.

O que é que todo ser humano, independente de cor, gênero, orientação sexual, poder aquisitivo e nacionalidade quer, mas poucos têm? A resposta é qualidade de vida, justamente o que leva milhões de pessoas a imigrarem todos os anos para países com maior índice de desenvolvimento humano.

Mas o que é viver uma vida de qualidade? É preciso levar em consideração não só a subjetividade do indivíduo mas também a objetividade de sua experiência no mundo como ser humano para que se possa responder a essa pergunta. E refletir sobre isso é fundamental, pois a insatisfação que permeia a sociedade ocidental contemporânea é consequência da insensatez do homem em sua busca por qualidade de vida, já que para encontrá-la, é necessário primeiro saber o que qualidade de vida significa para si próprio.

Aspecto objetivo

Há quem diga que não são todos os seres humanos que desejam qualidade de vida. Este pensamento surge quando apenas o aspecto objetivo do conceito qualidade de vida é levado em consideração. Nesse caso, torna-se fácil pensar que uma vida de qualidade é composta de valores absolutos e que, consequentemente, quem não os têm não quer ter qualidade de vida. Mas será que isso é verdade? Um exemplo atual ilustrará bem esse ponto.

Muitos pais acreditam que seus filhos precisem de uma educação relativamente prática, isso é, eles precisam cursar uma faculdade de Engenharia ou de Direito, por exemplo, para que possam ter qualidade de vida, pois assim eles terão reais oportunidades de trabalho. Se um filho demonstrar dotes artísticos e optar por seguir, por exemplo, uma carreira de músico, o pai dirá que ele está perdido, pois ele não terá muita qualidade de vida. Para o pai, o filho não quer ter uma vida de qualidade porque ele não quer viver de acordo com os valores julgados necessários para isso.

Aspecto subjetivo

Por outro lado, há quem considere apenas a subjetividade das pessoas ao refletir sobre tudo isso. Essas pessoas acreditam que somos todos diferentes e somente a própria pessoa sabe como ela pode ter qualidade de vida, e que por isso nunca devemos impor nossos ideais pessoais, muito menos criticar alguém pelo estilo de vida que escolheu.

Imaginemos, então, um executivo de 40 e poucos anos de idade que ocupa um importante cargo na empresa em que trabalha há mais de 20 anos, como sempre sonhou. Nesse ponto de sua carreira, ele trabalha mais de 12 horas por dia, além de responder a e-mails e telefonemas durante os finais de semana. Naturalmente, ele dedica cada vez menos tempo aos seus amigos e a sua família, e a deterioração de sua saúde é ofuscada pela “força” de sua conta bancária. De acordo com o ponto de vista subjetivo, a esposa do executivo não deve insistir que ele mude sua rotina a fim de preservar sua qualidade de vida mesmo se ela achar que ele deveria. Afinal, qualidade de vida para ele pode ser justamente isso, ganhar dinheiro dedicando todo seu tempo ao trabalho e à empresa. Será mesmo?

Equilíbrio

Quem pensa que qualidade de vida é um conceito estritamente objetivo, como o pai no exemplo anterior, ignora o fato de que diferentes pessoas têm diferentes interesses e capacidades. E é justamente a partir dessas diferenças que conceitos de qualidade de vida são criados. Para viver uma vida de qualidade, um atleta necessita praticar esportes para se exercitar e manter o físico, enquanto um intelectual precisa ler para escrever e debater sobre os temas que mais lhe interessa. Um atleta, portanto, não sentiria falta de um livro para ler em uma praia como sentiria um intelectual, da mesma forma que um intelectual não sentiria falta de pessoas para praticar um esporte na areia como um atleta. Mesmo assim, eles não devem presumir que o outro não tem qualidade de vida. Em vez disso, eles devem reconhecer as necessidades pessoais de cada um. E claro, isso não significa que um atleta não pode ser também um intelectual e um intelectual um atleta, mas só que os do exemplo acima não são.

Agora, também erra quem pensa exclusivamente no lado subjetivo do conceito qualidade de vida, pois ignora-se o fato de que pessoas são todas membros da mesma espécie. Em nossa capacidade humana, nós estamos todos sujeitos às inclinações de nossa natureza, independente de cor, gênero, etc… e o que é prejudicial a um, é muitas vezes prejudicial a outro. Por trás de todas as ações do ser humano, por exemplo, está a vontade ou intenção de se beneficiar, mesmo que indiretamente. Claro, muitas vezes uma pessoa acaba por se prejudicar, mas isso é resultado de incoerência – como é o caso do brasileiro adepto do “jeitinho” – ou porque a pessoa acha que se prejudicando de uma forma, ela acabará se beneficiando em outra – como é o caso de um depressivo que se corta para que ele chame atenção e seja ajudado. É por isso que a esposa no exemplo acima deveria sugerir que seu marido focasse menos no trabalho e mais na saúde e na família. O executivo esqueceu que foi justamente para isso que ele um dia sonhou em ter um bom trabalho e um bom salário, e não percebe que suas ações acabam por lhe prejudicar.

A qualidade — ou padrão — de vida dos imigrantes

Quando levamos em consideração o fato de que agimos sempre com a intenção de promover nossa qualidade de vida, nós percebemos o quão importante essa reflexão realmente é. No entanto, compreender que uma vida de qualidade tem suas características objetivas e subjetivas não é o bastante para que você descubra o que qualidade de vida realmente significa para você. Grande parte da população confunde qualidade de vida com padrão de vida, e a insatisfação que permeia nossa sociedade é fruto justamente disso. Por isso, entender a diferença entre esses dois conceitos é fundamental, especialmente para quem imigrou ou pretende imigrar. Vejamos o porquê.

Milhões de pessoas imigram todos os anos em busca de uma vida melhor. Elas deixam suas casas, seus familiares e seus amigos para que possam ter maior qualidade de vida. Em seu novo país, o imigrante é obrigado a mudar o olhar que ele tem para o mundo e a construir um novo lar – ambas tarefas árduas –, tendo que lidar constantemente com a saudade. Ironicamente, estes são todos fatores que contribuem para uma queda drástica na qualidade de vida do imigrante, que se esforça para vencer os obstáculos de uma nova vida e alcançar seus objetivos. Não é fácil. Por isso, entender a diferença entre padrão e qualidade de vida é absolutamente fundamental para o imigrante – apesar de ser importante para todos –, pois ele sacrifica muitas coisas que contribuem para sua qualidade de vida com o objetivo de melhorar sua vida ainda mais.

Ao chegar em uma cidade como Toronto, por exemplo, o imigrante de um país em desenvolvimento se encanta com tudo aquilo que lhe é dito necessário para se viver uma vida de qualidade. Isso é, eletrônicos, roupas, carros. Nós, por exemplo, deixamos o Brasil, onde somos bombardeados pela mídia com propagandas dos mais diversos produtos, e viemos para o Canadá, onde somos bombardeados ainda mais. A diferença é que aqui a compra de um iPhone, por exemplo, é muito mais viável do que é no Brasil, e o imigrante que não resiste à constante publicidade de produtos baratos, passa a gastar todo seu tempo e energia lutando para manter um alto padrão de vida. Tudo isso quando, na verdade, ele deveria estar lutando por melhor qualidade de vida, assim como ele pretendia fazer.

Um iPhone pode até ser relativamente barato em custo material, mas ele não tem nenhum valor existencial, por assim dizer. Mesmo assim, o imigrante não hesita em sacrificar sua qualidade de vida por certo padrão de vida, pois ele acaba confundindo o modo de “ser” com o modo de se “ter”, como dizia o filósofo Erich Fromm. Consequentemente, o imigrante é obrigado a trabalhar cada vez mais para arcar com seu padrão de vida, tendo cada vez menos tempo para cuidar do seu bem estar físico, psicológico e emocional, todos fatores que contribuem para a qualidade de vida de uma pessoa.

Mas não é a toa que isso acontece, afinal, a indústria publicitária se ocupa exatamente disso. Ela vende padrão de vida como se fosse qualidade de vida, impulsionando o consumismo que sustenta o capitalismo. Portanto, para priorizar qualidade de vida e não somente padrão de vida, é preciso refletir sobre as causas de nossas vontades, e suas consequências. Assim, podemos focar não só em poder de compra, mas também em saúde, educação, relacionamentos e nosso desenvolvimento pessoal. Afinal, são essas as características de uma vida de qualidade.

Felix, qui potuit rerum cognoscere causas.” – Vergilius


6 Comentários

6 Comments

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  2. Thais Andrade

    24/abr/2014 at 01:40

    Bruno seus textos são maravilhosos, adoro seu modo de descrever cada ponto de vista seu. Tem me ajudado muito em minhas escolhas na atual fase da minha vida.

  3. Eliana

    16/out/2011 at 23:54

    Bruno,

    Excelente reflexão. O teu texto me lembrou um trecho que um livro que gosto bastante Felicidade, do Eduardo Giannetti, em que os personagens debatem sobre o que seria a felicidade. Aí vai:
    “A felicidade do amante libertino não é a do filósofo kantiano, a de Mobuto não é a mesma do Dalai Lama. As concepções da melhor vida são infinitas, ainda que nem todas sejam coerentes,socialmente toleráveis ou tenham o mesmo valor. Aceito cada uma delas, seu apelo e razão. O que não dá pra engolir é a idéia de que a felicidade é alguma coisa que você compra, embrulha e leva pra casa, como aspirinas ou picolés. A felicidade não é algo ligado ao ‘ter’, mas ao ‘fazer’. Ela não é um humor ou estado de ânimo, por mais exaltados ou duradouros que sejam, mas o resultado de uma vida bem conduzida, ou seja, das escolhas e valores que definem o nosso percurso. É uma atividade, algo que se cultiva e constrói; algo que, em alguns momentos, se conquista e desfruta, mas que está sempre a exigir de nós empenho e e amor, sempre recomeçando outra vez. É impossível conceber a felicidade humana sem algum sentido de realização. Acreditar no contrário equivale a negar nossa humanidade. É o supra-sumo da alienação.”

    • Bruno

      17/out/2011 at 11:03

      Muito obrigado Eliana, bacana o trecho do livro que vc postou. Interessante a parte em que ele diz que “a felicidade não é algo ligado ao ‘ter’, mas ao ‘fazer'”. Como vc viu no texto, eu digo que a felicidade é ligado ao “ser”. Mas o que somos se não uma reflexão do que fazemos e de como vivemos a vida? Quando notamos o quanto nossos afazeres e nossas experiências mudam quem a gente é, percebemos que o “ser” e o “fazer” não são tão diferentes assim. Até porque, a noção de que se é algo ou alguém sem colocar isso em prática é pura ilusão, como é o caso de muitas pessoas, que tem como identidade uma construção imaginária.

      Eu ainda não tinha chegado à essa conexão entre a felicidade, o fazer, e o ser. Pelo menos não como agora… e por isso, obrigado!

  4. Renato Lacerda

    03/out/2011 at 14:32

    Caro Bruno,

    Eu gostaria de cumprimenta-lo por abordar este assunto de tanta importancia.

    Ano passado eu visitei Toronto e aluguei um quarto na casa de uma brasileira por um mes. Pois bem, eu descobri que esta pessoa vive a 27 anos no Canada e mal consegue falar algumas poucas palavras em ingles. Nunca visitou o ROM, CN Tower enfim , trabalhou toda a vida em sub empregos ilegais ganhando miseros dolares e alem disto nunca mais voltou ao Brasil visitar seus parentes. O apartamento nao e dela e sim alugado de um portugues e ela hoje esta sem condicoes de trabalho pois desenvolveu problemas serios psicologicos e psiquiatricos e raramente sai para a rua e nao tem amigos. Triste fim de alguem que com certeza um dia sonhou com os encantamentos do Canada. Ela tbem nao tem dinheiro algum exceto dos quartos que aluga para brasileiros e nao pode retornar ao Brasil, pois nao teria onde morar e como sobreviver. Vida jogada no lixo. Eu tbem fiquei chocado com a comunidade brasileira repleta de arquitetos , dentistas e medicos que apesar dos vistos de trabalho etc nunca terao uma oportunidade de trabalho na sociedade anglo saxonica, e apenas serao servicais trabalhando em sub empregos de limpeza, etc vivendo vidas mediocres e sem nenhuma qualidade de vida. Todos perderam suas identidades e nao sabem mais o que sao, pois seus sonhos sao sonhos eternos sem perspectiva. Muito deprimente a qualidade de vida destas pessoas que muitas vezes conseguem mobiliar suas residencias com lixo encontrado nas ruas. Uma vergonha!!!! No Canada ao contrario do que se pensa as pessoas embrutecem,senao como um arquiteto estaria trabalhando a anos como cleaner?

  5. Ajitae

    03/out/2011 at 06:22

    Hi bruno, Saudações! Assistência realmente úteis sobre este artigo informativo! É verdadeiramente as modificações pequenas que fazem a maior modificações. Muito obrigado um bom negócio para compartilhar!

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Bruno Vompean

Bruno é natural de Santo André (SP) e mora no Canadá desde 2007, onde estudou Filosofia e Criminologia na Universidade de Toronto até 2014. Mantém os blogs Enganos Mundanos e Conditioned Things.

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